2017-08-13

Azedume

Crónica. Domingo. Bird Magazine.


As tardes de Verão tiveram quase sempre, no meu imaginário, três ou quatro bandas sonoras, monótonas, taciturnas e muito pouco animadoras. Hoje não é excepção. A sirene dos bombeiros lamenta-se arrastadamente, fecho os estores e imagino que seja noite, com a sua longa túnica pontilhada aqui e ali com tremeluzentes pontos, longos, inimagináveis distâncias de tempos em que eu, deduzo, fosse um outro qualquer aglomerado de átomos, uma abundância relativa noutras percentagens, um isótopo ou apenas e só o pontilhado feliz e errante dos electrões que surgem e desaparecem nos diferentes níveis de energia. Ouço os carros zunirem, alternamente, novamente, a sirene dos bombeiros brame na quente tarde enquanto alguém se queixa do barulho,
- há quem tenha crianças para dormir
Sacudo a cabeça, antes fosse noite e todas as vozes que não chegam ao céu se calassem por momentos, se cingissem ao gutural arrastado de um ronco que sai da cavernosa reentrância para o vazio, que é a boca de quem protesta.
- não se pode com este cheiro a fumo nas casas
Ouço por entre o barulho do longo tapete castanho com riscas cor-de-laranja, ondulando ao sabor da jugular força de braços, a maré de pó que se esbate na praia das janelas dos pisos inferiores. Não, não se pode com o fumo. Acredito que o lamentar se deva ao cheiro que se incrusta nas narinas e não, nem por um momento, pelas assustadas aves afugentadas pelo fumo, os coelhos e lebres, os raros esquilos, os inusitados texugos que não acreditam ter visto, as fogueadas raposas e toda a bicharada alada, corredora ou rastejante, fugindo para proteger o pelo, a pele, a quitina.
- esta nortada, dá cabo da praia e das férias, que nojo
E claro, o enjoado opinar dever-se-á, tampouco, pela necessidade de dobrar o guarda-sol, escarrar e abafar duas ou três beatas na areia acompanhadas pela garrafa de cerveja, deixar para trás o pau do gelado ou o brinquedo que saiu no HappyMeal. Nunca seria preocupação pelo alimentar das labaredas que continuam sem dar descanso a centenas de homens e mulheres, enfarruscados, com o cansaço a gotejar nas faces.
- às tantas são eles que chegam o lume para ganhar uns trocos
E nada me surpreende mais depois disto. Rio num esgar de escárnio e divirto-me a imaginar os seus próprios umbigos como um sepulcral buraco negro para onde escorre toda a estupidez que exala dos pensamentos em forma de opiniões.
- não se pode com o que escreves
E nada mais do que fazendo a vontade a quem se habitua a ser parede, continuo a azedar-me e fico-me por aqui. Um dia deslevedo-me, volto a ser cereal e daí ao suor da mão de um agricultor bastará um fino cordão de prata para voltar ao local de onde não deveria ter saído.

2017-08-06

Clar(a)idade

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

Não há na profundidade de cada um superficialidade onde possam navegar serenamente sinceridade e despojamento. 
Há, sim, à superfície um profundo naufrágio que se banha nas águas da aceite e mantida ignorância. 
Não há ameias ou margens, apenas um leito que desagua na imensidão escura que são os olhos onde procuro a humanidade. 
Nada se esconde que exista. 
E eu, cáustico, vou diluindo-me na esperança da sublimação que me evapore e me leve, etéreo, olhar nos olhos das estrelas e pedir, envergonhado, para dormir com elas

Agora, baixinho, para não acordar o crepitar da lareira, vem sem medo para aqui, para a tua beira.
Deixa respirar a vida que te descolora a teimosia de sobreviver, vai ali ao fundo, vê-te desvanecer, pelos remendos que te orgulham o mundo, vai ali, a ti. 
Sabes, as pétalas que te florem dos ombros, são os teus braços, não os deixes pendendo como marcando o compasso com que te querem relojoar, o tempo encarrega-se de cair aos teus pés, agora, tu, infinito. 
És. 
Que mais queres, tu, que vir agora, baixinho, para te encontrares contigo, sozinho?

Imagino os pequenos pontos luminosos como potenciais pirilampos no céu dos meus dias, há em cada um de vós o olhar de quem se descobre e assim se ensina, a centelha, a sôfrega ânsia de a cada momento ser mais um na soma de todos.
Espreito por entre as nuvens, a neblina que se cobre de todos os naipes do meu baralho, sou eu e o orvalho, imaginando a voz que nunca me soprou de outrem e aí, onde brilham como as estrelas, peço-vos que mas sussurrem pois daqui só posso sonhar com elas.

Clamo pela claridade de um dia só com noites, sem qualquer receio do fim a que se sujeitam os sonhadores, pois aconchego na mão contra o peito todos os bocadinhos de mim que semeio e germino quando velho me sinto, novamente, menino.

2017-07-30

Em cinzas deitado.

Crónica na Bird Magazine, a 30/07/2017.

De aparição em surgimento, sem que se negue o sentimento, muito há a fazer para que da vontade se passe ao culto. No entanto, quando a vida procrastina os planos de alguém, nada mais parece haver a fazer do que subir os degraus de um santuário com maior ou menor custo. Por isso, encosto-me à parede ensombrada que o Sol permite e aprecio a paisagem como quem se enamora por um jardim. O Santuário ainda não transpira, mas eu sim.
Percorro os corredores de mármore, faço por não olhar para o chão, evitando ler os nomes de quem quer que tenha sido sepultado ali. Não pela falta de respeito, sabe-se a pessoa ausente dali, mas porque ninguém, tridimensionalizado ou não, merece o seu nome lido olhando para baixo.
As promessas estão enroladas em papel alvo, uns pautados, outros quadriculados, dependendo talvez da tendência linguística ou matemática de cada pedinte ou, parece-me o mais lógico, porque qualquer papel é bom para escrever num português esquecido pelas diferentes articulações de palavras, consoantes e vogais, que se estendem por diferentes cantões e países. Deus que tudo sabe, dispensaria tudo isto, mas pode existir uma tendência santificada, uma espécie de concurso entre as três figuras onde vi mais papéis (São Judas Tadeu, Menino Jesus de Praga e São José). Será porque as outras figuras dispostas na catedral estão altas demais para a estatura média do português? 
Saio do bafiento local, a falta de aragem torna a respiração mais pastosa, como se além das promessas também ardesse a cera das coisas que tenho por dizer e que vão por aqui, presas e pigarreadas na glote. 
O cerário é o meu próximo caminho. Aquele grande paralelepípedo de ferro forjado, com uma pequena entraída (mistura de entrada e saída), exibe a quem se aproxima uma espécie de caixa negra de promessas e fés, queimadas em altas velas de cores esbatidas pela fuligem e pelo esforço com que o fogo queima o pavio e desfaz a cera colorida de quem se encomenda a Deus. 
Habituada visão à mudança de luminosidade, olho à direita e vejo-o ali, deitado. Entreabrindo os olhos, fita-me por detrás de uma íris luminosa. Ter-se-á assustado com o barulho das minhas sandálias? Pensaria que pelos pés assandalizados estaria um salvador prévio por estas passagens há dois milénios? Aquele olhar por entre a negridão do local contrasta em termos metafóricos que escuso redigir. O tecto escuro e o qualquer preparado que tenha sido aplicado desfaz-se em pétalas metálicas e negras que caem sobre as velas e a cera derretida. Ali, em cinzas deitado, um grande menino Jesus, sujo e magro, amortalhado nas vestes gastas e sebentas, dorme envolto em si como quem se abraça para espantar a solidão. Aproveitando a constante temperatura amena das velas ardendo na noite, ajeita-se puxando e ajeitando as promessas sobre si e volta a fechar os olhos claros e profundos, enquanto me sobra apenas a força para atiçar o próprio lume e, sem papel, rabiscar umas linhas e pedir-Lhe que me faça compreender naquilo que escrevo.

2017-07-29

Pouso a sombra das minhas mãos
ergo o calor da tarde
e brindo ao gradiente nublado
onde orbita a solidão.
Não me queime assaz a vida,
aprendo no vento que passa
e sopro longe a ondulação,
esqueça-me o tempo
invoque aos sentidos a fome,
escreva-me às dunas do tempo
a invisibilidade
pois não sei meu nome...
No céu de tílias
há infusão de peregrinas fés,
içam-se manhãs milenares
nas escadarias onde descendo se subia
saboreando-se as tardes à sombra de um Sol que sorria,
urge a noite que me acorda
e eu, adormecido, rasgo o horizonte
semeando
apenas com o olhar
o futuro que ausculto,
não me desenho, vivo,
à vontade do que me tremeluz
saúdo, inebriado,
de peito arado e cego
o tríplice soar matinal.
Em nenhum deles te nego.
As virtudes dos sentidos
na ascensão
embrutecida do sol encimado
pede ausência de luz,
aqui já nada seduz.
As azinheiras adormecem à sombra das pessoas
cinzentas,
amortalhadas pelo vazio esbatido,
um pouco de nada
nas vestes encardido.
Ribomba a noite em girândolas gulosas,
o meu peito infla e entumecem-me os olhos,
as estrelas tremeluzem
talvez saudosas (minto-me)
dos meus sonhos.

2017-07-23

Quase tudo de todos

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

A que lado da vida se encosta a tarde?
Percorrerão os passos o caminho que os olhos tentaram adivinhar? Teríamos imensos destinos num simples sulco na mão?
A que lado de mim se encosta a interrogação?

Ardem-me os olhos e, no entanto, vejo como se fosse já amanhã e todas as urgências se resumissem a um final de tarde numa sombra, onde trinam jovens casais enamorados e o passado não surja escamoteado de saudade. 
Que farei eu às palavras que não conseguirei proferir porque me embola a boca com o ar pesado que sai dos pensamentos da multidão que se aglomera à entrada do abismo? 
A cada passo ergo a Lua e a cada curva o calor da noite nas pedras da tarde aquece-me o imaginar. 
Por vezes, sou quase pessoa.

Na ascensão do que julgamos impoluto, há uma miríade de perpendicularidades que se destinam a fazer-nos angulares, sem uma aresta imperfeita, coisas que a matemática nos faz sem necessidade, pois seremos já uma conta perfeita, à procura da subtracção que nos permita dividir um dia por inúmeros cálculos sem sentido. 
No dia em que me somei, não encontrei na inversidade calcular o resultado sentado à direita do sinal. 
Não seremos já o resultado de uma conta inacabada? 
Só por hoje, faz de conta...

Há um pequeno ribeiro que desagua na almofada, diria que o dia está com sono e a maré alta da ressureição traz à vida os sulcos dos montes onde cresce a torga e o nome é fraco espelho da pretensão de ser rima. 
É por nada aprender que tudo se ensina. 
Vou dar a volta à nuvem onde me sento, ainda há pessoas com a textura do algodão doce, pudera eu fosse, sabor e louvor, para ostentar a pintura de um socalco que se pariu sem dor. 
Sou da terra, do laço do passarinheiro, quando ao lado caem à dezena de milhar, que unguento guardo para desenhar na terra o sol que deseja brilhar?
Já o sonho espera ao fundo da cama, aqui só a noctivagueidade tem prioridade sobre o torpor lento que adormece. 
Como eu. 
Como o céu.

2017-07-21

Sabes que o tempo não existe quando te deixas levar pelos minutos e te encontras segundos atrás.
Pergunto-me muitas vezes sobre quanto pó se pode acumular no olhar, quantas poeirentas madrugadas se inclinam pelo dia, arrastando consigo o invólucro dos sonhos e dos futuros, um semi-aberto baú onde não cabem caminhos por percorrer, porque não existem ainda.

2017-07-20

Translação instantânea

Crónica do Nada, para ler no Correio do Porto.

Durmo baixinho, entro no sono sem que ele se aperceba, encontro à minha espera um longo caminho que me levará ao meu verdadeiro útero.
Vou voltar por entre pétalas, em poesia que floriu sem que de mim nascessem flores ou mãos.
Emudecido caminho até ao acordar, triste por saber que mesmo não glorificando a dor, há algures aqui um verso a doer, talvez por isso passe anos a ver os dias passarem. 
O corrupio e sucessão de voltas e subidas e descidas do Sol e o quanto isso afecta as pessoas assoberba-me. 
Continuo a ficar encantado e surpreendido com as nuvens, raios de trovão com duração de longos segundos, pequenos rios de chuva com pepitas de granizo, persistentes a boiar na correnteza, caruma e terra solta com saudade de água, fazem subir ao palato aromas de terra, molhada, paciência e persistência que parecem inundar Trás-os-Montes.
Vou lavando a cara com as memórias de paisagens que se fazem correntes. 
Para mim, um dia duraria um ano. 
E nesse ano iria percorrer a pé todos os trilhos que pudesse degustar, parar numa berma e sentir o vento quente, fresco, todas as estações à sombra de uma vinha, mil mundos num só bago de uva. 
E nesse ano, metade dos dias seria noite e aí, por ela dentro, teria em mim as saudades de casa no cintilar das estrelas. 
Deixar que a nuvem se delicie em sombras pelas nuvens e se deixe ocultar pelas formas cinzentas e azuis que parecem saídas do sonho de um pintor em constante revolução.
Será amanhã outro ano. 
Espero poder polvilhar as mãos com a poeira que ainda me resta no corpo e esperar, impaciente, pelo retorno dos dias que não se medem.





2017-07-16

Sentidos cinco sentidos, proibidamente fragmentados

Crónica fragmentada, um domingo inteiro, na Bird Magazine.

I
Tento perceber em que lado de mim quer a vida que eu viva. Se pelo saltitar pardalesco de nuvem em nuvem, se pelo nebular saltitado de pardal em pardal. Aqui já nem vive o bem, nem se amortalha o mal. 
Quando a vida tenta perceber de que lado vivo, respondo-lhe no calado grito do que escrevo, a vida se vive em mim habita no horizonte que construo a cada piscar de olhos, não há lugar para dimensões quando o infinito é da cor do universo que finda. Há tempo, ainda?

II
Tenho que esperar que o futuro adormeça, para só aí poder tirar-lhe da fronte, em silêncio, a madeixa que se cola à sua vida e o faz pensar ser algo a ter. 
Ganha o futuro e eu, calado, à espera que acorde e eu possa fingir dormir à revelia da rotação sobre um despossuído eixo. Translado-me e por aqui me deixo.

III
Agora que o dia ausenta as sombras vítreas que me nebulam, saio no vaguear da noite optando-me vagabundo, sem amaras que não a própria vida, vou lesto e nu porque nada me veste além da luminosidade obscura que orvalha dos candeeiros solitários. 
Dispo-me enquanto se vestem, do berço até aqui, peça a peça, para me deitar em palhas dormindo, a saga de levantar nada e querer poder tirar pele que seja, desabotoar corpo e salgalhar por aí como pétala ao vento em dia de tempestade. 
A meio caminho encontro outros, mesma direção sentidos diferentes, eu na ânsia de me livrar do supérfluo, outros na superfluocidade de se livrarem da ânsia, sigo confiante com o que me resta enrolado debaixo do braço e um abraço a tiracolo. 
Quão longe poderá estar?

IV
Meço a noite antes de me deitar. É mais curta que o sonho. Mas respeita. Pouco vale o vale a quem ora, de hora em hora, se não sabe que o sonho nasce do mar e não do cetim onde se gabam deitar.

V
É na cálida madrugada do teu olhar que vejo o nascer de um dia futuro. O alimento da curiosidade traz-se pelos ombros carregados de dúvidas e ilusões, tuas e dos bichos-papões. Enquanto a vida não te molda adulto e te vinga pelas paredes de prédios devolutos que são as ideias de outrém, ergo-te à luz da lua e advogo-te às estrelas enquanto brindo com o breve nevoeiro, que te proteja o guerreiro adormecido da tua visão do amanhã.
Tu. Criança. Sã.

2017-07-09

Trovão

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Começou com as nuvens negras a ofuscarem a luminosidade da tarde, abrigado que estou do calor, do Sol e da vida durante os meses quentes, pareceu-me bom augúrio. Começo a olhar para o relógio e a forçar a passagem dos minutos, mas tudo tem o seu tempo, até o próprio tempo.
A tarde começa a cair triste e soturna, os grandes flocos cinzentos parecem empurrar os alvos para bem lá do Marão, onde mandarão os de bom coração. Aqui começam a surgir os mais escuros, um cinza azulado negro saboreado, a cor que lhes dou quando me prometem aguaceiros por meio dos bafientos dias de Verão. De repente o vento aparece a correr, abana as montras, assobia de excitação, empurra portas entreabertas (não queremos cá indecisões, “ou abertas ou fechadas!”, diz-me ele, apressado), sacode os cabelos dos transeuntes, fá-los apertar a parca e veraneada roupa ao corpo. Quando vai já longe, perdendo um pouco mais de tempo a enrodilhar uma bandeira desfraldada, ouço o ribombar da trovoada. Os meus pelos eriçam-se, não de medo ou instinto, não de invocação a uma sossegada Bárbara, mas de excitação, um quase poder saborear a tensão, o rasgar numa fisgada aguda e repentina o ar que me separa do nada e, depois, o estremecimento, o ofuscamento ainda e o sacudir de todas as células do meu corpo. 
Assim fosse o silêncio. Repentino. Intimidador. Acompanhado do infinito.
- Se vais sair leva o carro, vais molhar-te! - Sou parco de audição no que concerne a conselhos que não quero seguir. Abro a janela da sala, ergo o estore, pouso as mãos no parapeito frio e já molhado, encosto a cabeça à chuva que cai e sorrio. De passo apressado, quem nunca se molhou corre sobre os paralelos já cobertos de água, o guarda-chuva encolhe-se sobre si mesmo, as varetas soluçam e tremem, enferrujadas pelo não uso, como a palavra e o amor. As caleiras engasgam-se no vómito de expelir o que do céu cai, a chuva cai apressada consciente da brevidade do momento de precipitação nesta estação e saio decido à rua. 
Levo um pequeno guarda-chuva como medida de defesa da mesologia. Quero lá saber se chove? Aliás, quero saber que chove e no meio disto, quero a chuva em mim, de cima a baixo!
Entro no terreno como dono baldio, por esta altura os pés já estão encharcados e não faço a mínima intenção de me desviar das poças de água ou da que corre no carreiro que se foi carreirando por eu ali passar. As flores vergadas ao peso da chuva erguem-me o olhar e parecem agradecidas pelo facto de me preocupar em não as calcar. Por breves segundos questiono-me pelas formigas que ontem vi, atarefadas, a tratar da vida da rainha e, como leais e inconscientes súbditos, esquecendo-se delas próprias. 
Chego a outro terreno onde a caruma flutua contente nas barragens que o terreno levemente inclinado permite. Afundo-me um pouco na terra e sorrio. O guarda-chuva está fechado.
Encosto a mão à casca de um pinheiro na parte onde está molhado, afago-o e cheiro-o. Este odor que se ouve inebria-me. Felizmente tudo se recolhe ou corre apressado de olhos no chão, fico eu e a chuva e o silêncio de me ouvir chover também. Com o guarda-chuva pendurado num ramo firme e baixo, abraço o pinheiro, sujo-me e molho-me ainda mais. 
Fecho os olhos por momentos. Rio-me um pouco. Choro um pouco também. A chuva continua a cair, nada me separa do céu agora que a água me conduz as vontades ao etéreo e, por momentos, quando a eternidade parece querer adormecer, deixo-me silenciar o corpo e adormecer. Quase como se te estivesse a escrever.

Cloud-icando

Crónica no Correio do Porto, secção Crónicas do Nada.

O frio vai surgindo, deixa-se cair como um lençol invisível pelas costas. Arrepio-me. Por momentos penso que é já de manhã.

Os dias têm adormecido cansados, pudera, vou deixando-os ao abandono, desterrados, para me entreter sentado no topo de um qualquer monte (hoje escolho o Gerês), fechando as mãos e soprando para elas, para depois as abrir e moldar umas quantas nuvens.

Fazem-me cócegas nas palmas das mãos, rodopiam por momentos, com os olhitos entreabertos a mirarem-me sem saberem muito bem o que fazer.

Acrescento-lhes um pouco de azul que deixo cair dos olhos, moldo-as um pouco mais, ergo as mãos para um ponto cardeal a gosto (ultimamente, Norte) e sopro as nuvens, que vão subindo e crescendo rapidamente, sorrindo quando o vento as leva para lá de onde eu consigo alcançar, aumentando quando alguns cristais se aglomeram para as verem passar e, desprevenidos, se deixam apanhar neste algodão doce gigante.

Quantas nuvens terei eu já feito?

E para quê?

Mas, confesso ainda sem saber, vou fazendo-as, todos os dias, de diferentes tamanhos, sem qualquer molde, que fazedor de nuvens será criativo o suficiente para deixar que as nuvens moldem a mão, para que um dia elas, estejam lá onde estiverem, se lembrem de mim e me venham rodear quando estiver sentado algures, moldarem-me para que eu, de olhos entreabertos, confuso, acorde de novo, num outro monte, num outro ermo, moldado a nuvens, vento, sonhos e olhares.


2017-07-06

Incógnitas

Sem qualquer surpresa, o dia escorrega da noite para a iluminada parte da terra, percorrendo sem grandes veleidades léguas de chão parando poucas vezes para escutar o que de nada sai quando a mediocridade e inocência teimam em falar. 
Fascina-me a inconstância meteorológica e os frutos que a terra vai parindo, seja fecundada profissionalmente ou somente com amor.
Fascina-me o acre do suor e o movimento de fuga da insectivorada esgravatando terra adentro como desejando voltar para os bracos da mãe.
Fascinam-me anos passados numa memória que dura um segundo. 
Quem não gosta? 
Há um se e uma realidade, qual de ambos é real? 
As costas voltadas à montanha ou a obsessividade pela vida que se sabe não existir? 
Fascinam-me as cores sob as nuvens antes do Sol se pôr ao encontro dos momentos finais do dia, ainda que, como hoje, as cores vivam apenas na imaginação das palavras que me escrevem.
Que seriam de meus dias futuros, sem a incógnita dos passados?

2017-07-03

De um reflexo
trazendo-me pela mão os sonhos 
em vão
as paredes alvas descem do céu
ao chão,
o calor abafa-me a noite fria no afago
e murmuro sem auscultar ou conhecer 
este eu que pela mão trago.

2017-06-25

Pontão

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Aguardo a chegada das estrelas sentado desapropriadamente nesta espécie de caminho de madeira que termina sobranceiro ao areal, esperando que a noite me venha cobrir com o frio latejar que só ela sabe. Só ela.
Atrás de mim as dunas parecem bailar com o vento que faz roçar os cardos, abanando com fervor remanescências plásticas de sacos cheios de nada, apenas incúria de uns poucos seres andantes, autointitulados inteligentes, ainda presos nos espinhos e na vegetação rasteira.
Não fosse a maresia, diria estar no sopé de uma colina, pernas bamboleantes como um puto qualquer a olhar para o fundo no vale, esperando com um olhar de genuína traquinice que uma das sapatilhas se deixe desatar e vá cair ribombando em silêncio, colina abaixo.
O marulhar das ondas, o escorrer lânguido da água pela areia ainda morna depois de um dia ensopado em calor, a praia a sorver o resto de tarde que teima ainda, pelo alaranjado céu, manter-se desperta sem contudo tentar roubar qualquer protagonismo à velha actriz que aguarda atrás, no pinhal onde as árvores se agrilhoam ao solo como garras de bicho quase enterradas na pele dura de um animal. Mas o tempo sucede-se como um palco onde o cenário se confunde com as paredes e o telhado se mescla com o céu, deixando de se perceber onde termina um e começa outro. 
A passos pequenos, mas firmes, vem já trajando o frio fino que se vai compor em orvalho daqui a umas horas, arrastando um manto de estrelas titubeantes como uma rainha que embora não o queira ser, por obrigação desempenha o papel e por caridade o grafia bem, o papel e o reinado. Louvo e invejo, confesso, o seu papel de errante caminheira, o périplo pelo reino, as pequenas passadas com que, no cuidado maternal para não acordar um filho no berço, vai percorrendo todo o horizonte sem que saibamos sequer dos afagos que deixa ficar nos sonhos de cada um de nós. Os confessos, quase sós.
Por hoje, sem que eu perceba o porquê, longe de merecer qualquer honraria em forma de sua companhia, detém-se de pé a meu lado. Apercebi-me apenas quando ao sentir o pousar de uma mão no ombro me assustei e, olhando para o lado, a vejo de pé, sorrindo para mim como se por magias que apenas ela, a noite, conhece soubesse ver os pensamentos que vou deixando presos nos cardos das dunas. 
Enquanto o céu estranha a pausa no anoitecer ela senta-se a meu lado, o manto comprido sobre o resto do passadiço, os cardos e as dunas, o pinhal e todas as cidades, vilas, aldeias, planícies e os planaltos, os meus planaltos. Uns dormem cientes que o dia nascerá quando voltados ao corpo, outros ruborizam esforços em braçais trabalhos, subjugados, os apóstolos que limpam o lixo nosso de cada dia.
A noite deteve-se a meu lado. Parece conhecer-me bem e no olhar fundo que trocamos, soçobro no silêncio e um orvalho cai-me dos olhos. Passiva, serena, com uma ponta do manto limpa-me o canto orbital onde muitas vezes me batem à porta os mundos que nem sabia existirem. A claridade do dia que não cai faz brilhar o resto das estrelas que se desprenderam do manto e sulcam, secando, o caminho na minha cara por onde nebulei.
Levanta o braço esquerdo e parte do manto. Olho para trás assustado, todo o firmamento parece sacudido, as estrelas ondulam como se fossem simples espuma na crista da maré, do interior da noite o sorriso manso por entre as madeixas negras da noite abre-me a porta para o lado de lá do céu e, cansado, agradecido, surpreso, deixo-me cair sobre o seu regaço e adormeço, sem me aperceber que amanhã, quando acordar, a noite terá partido e de mim apenas a lembrança no pontão, pés suspensos a abanar com o vento, as mãos com as marcas das tábuas e o sorriso, salgado, de ter em mim todos os dias passados, presentes e futuros e, ainda assim, querer viver para lá do vivido.

2017-06-22

Dez-níveis

Crónica no Correio do Porto.

Vejo-os desarrumados, nos passeios latrinados que ladeiam as calçadas, agora sem pátria, a arrumar, em movimento sincronizados (aqui chefe!), as pessoas veiculizadas das cidades.

Os olhares de tais indivíduos são plurais, habitam neles legiões de idos, de sombras sarjetadas de quem não se sabe, ainda, arrumado.

Se um carro aponta na curva, o assobio, a corrida cambaleada, o olhar esbugalhado na dose antecipada.

– Uma ajudinha chefe, para um caldinho.

Como se lhe servissem sopa, às tantas da tarde, a quem se assemelha a um vegetal desenraizado de uma terra qualquer que o pariu.

A mão estendida, mão aberta que não fala, não ouve, apenas se estende e amortalha para, aos poucos, ir consumindo o corpo, primeiro de esperança, depois de mentiras e, finalmente, de tão vão e oco, o vazio.

É vulgar o vestuário, que nunca regra geral, ser de cor das noites geadificadas, esfarrapadas, onde o frio faz morada e habita onde quem o acolha.

O cheiro vagueia pelo ar, acredito que ele mesmo nauseado, dos tempos e tempos abandonados.

É difícil imaginar, sequer ver, qualquer horizonte emparelhado, seja com a solidão, seja com alguém, onde se acalentam os dias adormecidos e se partilham cartões, canelados, cobertores, vãos de escadas, esquinas capitais e, quando a noite se permite aquecer, um banco de jardim.

Pergunto-me o que me separa disto, deles, do cartão canelado?

Que mundos tão desnivelados existem dentro de uma só vida?

Tenho sede, vontade de orvalhar pelo mudo, pelos caminhos e estações de comboio desta vida.

2017-06-18

Fainas

A faina da crónica, ao Domingo, na Bird Magazine.

A doca atarefa-se como sempre o faz quando os barcos, já depois de ancorados à esperança da faina tormentosa se transformar em palpável gratificação, descarregam o peixe que, sem culpa alguma, se vê enredado na rede e no pleonasmo. Os olhos vítreos são a janela para o local vazio onde um dia, ainda que inexplicavelmente, nadou uma alma. A correção diria que os peixes não tem alma. A introspeção diria que a alma não tem peixes. E eu, que transporto ao etéreo as vontades blimundanas, deixo-me ficar encostado à sombra do prédio, fitando o chão e as letras desenhadas pela trajetória retilínea da luz.
Teremos tanta fome assim que nos obrigue, dia após dia, a voltar a cavalgar um mar que se espuma de forma salgada, ver confiada a sorte nos ventos e marés, ter os dedos gastos de rodopiar contas de um rosário invisível? 
Indiferente a toda a azáfama e também a mim, que me apoiava à sombra e me imiscuía pela penumbra, a Terra vai andando de terra em terra que é o vácuo orbital onde permanece, sem direção ou sentido, mudando de posição e estendo sombras onde antes eram penumbras, penumbrando novas pedras, azulejos, calçadas, asfalto, grelhas de esgoto, velhas beatas inanimadas e o tradicional lixo, ornamentalmente bordado a qualquer solo que pisemos. 
Viro a cara ao ouvir e, depois, ver uma pequena carrinha soluçar, tossindo um fumo branco e, depois, parar quase ao meu lado. Acredito que a sua cor já tenha sido branca, no entanto, salpica-se de ocre como velhas sardas a quem o tempo se incumbiu de tatuar profundamente na carenagem. Imobiliza-se com um saltinho, como um soluço, como se pedisse perdão por parar sobre a grelha em ferro fundido. O polícia, em bicicleta, deita um olhar reprovador ao aspecto, mas o olhar rápido pelo canto inferior confirma a validade dos dísticos e, a espreitar pela porta podada na parede cinzento amarelada da taberna, o piscar de olho do taberneiro confirma que esta é situação para dispensar.
A porta abre-se, um pé grande calçado por uma moderna sandália réptil verde com olhos cinzentos. Outro pé no chão e o levantar abraçado à ombreira. Bate a porta com delicadeza viril, como se o tempo (e eram certamente oitentas medidas de tempo naquele corpo grande) tivesse perdido a acutilância do toque com conta, peso e medida. Vai lesto na vagareza do corpo que parece habituar-se ainda à posição vertical depois de, deduzo, longa viagem ou tempo sentado, alcança o outro lado, encolhe-se entre si mesmo e o autocarro azul e branco enquanto este passa apressado para, agora, abrir a porta com o cuidado pueril de quem em noite de núpcias eternas, como sucede com quem se permite amar todos os dias. As mãos gastas e enrugadas encontram-se e a custo ele, no esforço de puxar, e ela, no esforço de erguer, içam em esforço de faina a vontade de ir à doca encher as brancas cuvetes de alguns, deduzo, quarteirões de peixe variado. 
Quando voltaram, de mão dada, saio da sombra para visualizar melhor o palco onde se desenrolava a peça. Vejo que o polícia, embora parecesse preocupado em não o mostrar, apreciava a cena com um sorriso. A porta traseira da velha Renault Express abre-se na horizontal, não sem antes um bom abanão desprender a ferrugem das dobradiças ou, aqui é apenas a insolação a divagar, a acordar do sono a que parecem pertencer todos os que envelhecem de bem com a vida. O jovem que lhes trouxe as cuvetes, já depois de as pousar na carrinha, recebe animadamente uma gorjeta em forma de moeda, a mesma moeda que, sem que os velhotes reparassem, deixou cair no bolso do avental azul da idosa menos idosa do casal. 
Do lado da lota, algumas pessoas, perdão Pessoas, fitavam com um sorriso enternecido a cena que deduzo ser usual, tal o grau de cumplicidade e facilidade de gestos entre os intervenientes, as mulheres acotovelavam os maridos e apontavam com a cabeça, os homens encolhiam os ombros, um ou outro passava o braço sobre a mulher e a ternura que também veste quem nos gestos despe gestos cuidados para puder abraçar melhor as redes que puxa para bordo.
A porta da carrinha fecha-se, ele, novamente, abre a porta para que a companheira e companhia entre. Fá-lo a custo, deixando-se cair primeiro com cuidado e, já quando a distância ao banco o permite, com a força que a idade parece exercer nos corpos que acumularam trabalhos, fazendo a carrinha abanar. O estremecer da porta ao fechar faz cair um pouco mais de ferrugem. Quando ele entra, um pouco mais aligeirado que a esposa, agarra o volante com as duas mãos e sorri. Ela coloca a mão sobre a mão dele, fechando-a sobre a mão e o volante. Com a cumplicidade que só se atinge quando os dois corpos são parte integrante de um corpo apenas, e já nem este corpo se sente, fita-a. Levanta a mão esquerda e leva-a à face rosada, enrugada, quase curtida da esposa. Retira-lhe da frente da cara uma madeixa da cor do nevoeiro que se habituaram (invento) a sentir nas manhãs de faina. Com o grosso e torpe indicador raspa uma escama que luzia na bochecha já descaída. Dá-lhe um beijo tímido com o pudor de quem ama na inocência, liga a carrinha e arranca e é neste momento que me arrependo de não ter trazido o caderno para escrever a história.

2017-06-13

Hoje sou eu

Crónica no "Correio do Porto".

Descalço-me
Sinto a terra, quente, nos meus pés.
Algures pelo Universo, este berlinde rodopia e rodopia-se, incessantemente, durante anos e segundos.
Não consigo deixar de me sentir rodopiar, agora, no portátil, numa lagoa do Alvão ou num dos muitos recantos do Gerês.
Quantas partes de mim se escondem num tronco, num animal faminto, numa cereja amadurecida, numa chuva quente de Primavera, num olhar pelo horizonte, num meridiano qualquer que me acolha como voluntário?
Lentamente, a minha unidade e identidade separam-se para percorrerem todas as dimensões que desconheço.
Vou construindo as frases como quem se recorda do útero, como quem tenta, entre pinceladas, o traço fino com que desenho o dia de amanhã.
A poesia, a prosa, tudo o que seja escrever, pensar, verbalizar, contextualizar, tudo me foge das mãos para se esconder e partilhar com o vento, esse sim, viajante eterno que se esconde onde todos o encontram.
Faz-me falta a caminhada, o sentir descontraído do vento e do sol, da chuva e do frio, pelos caminhos que vou percorrendo.
Sem rumo, mas com destino, enchendo o peito de feno, de pólen, de uma ou outra lágrima que se desprende para molhar o pensamento.
Não caibo em mim.
Hoje, sou tu e tu, e tu, e tu!
Hoje sou todos nós, pelos quadros que nunca pintei, pelos muros que nunca saltei com medo do lado de lá.
Se um dia as minhas mãos se calarem, que não se esqueçam meus olhos do caminho que me leva até mim, ainda que distante.
E hoje, que não sou eu, é quando verdadeiramente me sinto em mim, sem riso ou lágrima, apenas brisa ou ar gélido, ou eu.


2017-06-11

O céu

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Quando o dia amanhece cinzento, por precaução sai à rua com uma boina cinzenta riscada, padronizada. Fá-lo apenas por reflexo, como se ainda reverberasse no espaço entre ele e a boca da esposa as palavras granizadas, quase sopro, de quem no leito de morte se preocupa cada vez mais com os vivos, especialmente com os que se amam há décadas, como por obrigação ou cuidado, não vá o descuido da idade passar em esquecimento e, assim, por pressão da vida, fazer esquecer a melhor parte de nós próprios.
- Olha que o Sol está lá na mesma, leva a boina! – era o que ouvia antes de sair, depois de lhe acomodar a almofada e dar uma carícia em forma de beijo, levemente, na testa. Depois colocava a chave debaixo do tapete da entrada, local combinado com as cuidadoras aladas do serviço de apoio domiciliário que, diariamente, lhe cuidavam da higiene e variavam a companhia. Era a estas que a mulher, de forma cada vez mais suspirada, agradecia o carinho e pedia que tomassem conta dele.
- Ele anda cá por andar, se não o lembrar de respirar nem isso faz por iniciativa própria!
Elas sorriam, ao mesmo tempo que a esponja molhada com cheiro a leite de coco e mel lhe humedecia um corpo seco, quase a ser colhido.
- Tomem-me conta dele.
Dia houve em que ao aconchegar a almofada a sentiu mais leve, a cabeça pendeu para o lado direito, os olhos não se abriram cansados e o braço, geralmente sobre o peito, escorregou por baixo do lençol e ficou suspenso. Confuso, o seu peito sacudiu e engasgou-se com o ar morno que a braseira aqueceu durante a noite.
Respirava sozinho pela primeira vez em muitos anos, tantos que já nem se lembrava. Saberia serem mais de meia centena, o anelar ostentava a recordação de um dia dourado. Ficou imóvel durante alguns minutos, depois pegou-lhe na mão e colocou-a com cuidado sobre o peito. Deixou-lhe a cabeça tal como estava, tirando apenas uma madeixa branca e enquanto o seu corpo arrefecia, foi à janela e ficou a olhar o céu.
- O senhor fica bem?
Foi a pergunta das cuidadoras quando já depois de chamados os bombeiros e a funerária, após os trâmites usuais, levantar o corpo.
- Não sei. Acho que sim.
Não usou mais a boina. Tenho-o visto à janela e envelhece a cada dia que passa, sessenta vezes por minuto.
Barbeia-se com o mesmo cuidado de sempre, mas pela cada vez mais flácida face é fácil que o gume da lâmina escanhoe nova ruga. Um pequeno fio de sangue escorre. No espelho embaciado parece-lhe vê-la, amada, esposa, a passar-lhe uma ponta da toalha molhada no corte e o sangue a estancar. Sorri inocente e embevecido, como se as mãos de quem já cá não está se permitissem galgar a distância infinitesimal que nos separa do corpo à alma. Ao ver novamente a cara no espelho, ainda lá está o corte, o fio de sangue que se deixa cair no lavatório e escorre, por entre espuma branca, até se deixar de ver.
Há um dia, porque no passado não se escreve de quem fala no futuro, em que se levanta da cama de forma ligeira, na respiração leve e instintiva vê que o ar se solta em finíssimos cordéis de prata e todas as partículas no ar se assemelham a dentes de leão que a vida soprou, só para si.
Virou-se e viu-se, ainda na cama, cabeça sobre o lado direito e uma feição sorridente, a mão aberta sobre o lado vazio da cama, o leito seco da vida de onde se colhem as noites sós. Sorriu. Via-se mal barbeado, despenteado. Esteve por ali vários minutos ou vários sei lá o que é que chamam ao tempo onde não existe tempo, até ver surgir, como uma figura esculpida em nevoeiro matinal pelas mãos de um artesão a quem não se vê a face, a mulher, em feições que só se vislumbram com os olhos que a terra não irá comer.
- Estava a ver que nunca mais vinhas.
Ela sorriu, passou-lhe a mão na face, o calor de se ser quem é.
- Estive a procurar umas pantufas quentes para ti. Sei que é o céu, mas nunca gostaste de andar descalço.

2017-06-04

Se um dia puder ser mãos, quero ser as tuas.

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Não me pede. Fala. Eu é que peço para ir. É esta cumplicidade. O pouco diálogo. 
Cortar o silêncio com um comentário sobre futebol, uma nova teoria de conspiração ou o livro novo que estás a ler. É falar sobre tudo e sobre nada. O trabalho que dá fazer um parafuso. O mistério que é o Universo, o seu início, o seu fim, o nosso fim. Experimentar um novo troço de autoestrada para te ver como eu era em criança, maravilhado com algo novo. 
Ainda guardo um cubo de madeira, é a letra Z curiosamente, sobrou-me a última letra de todos os cubos que fizeste com todas as letras e com as quais aprendi, sozinho, a ler e a escrever ao copiar o que via escrito nos livros que lias na altura. É estar sentado no escuro, nos Invernos com trovoadas que levavam a electricidade, sob um cobertor cor-de-laranja, contigo a mostrar-me a magia, ao soprares e só passados uns segundos a vela oscilar.
Quando conduzo, é como se fosse ainda a olhar para ti, a segurar com as mãos um livro de banda desenhada e a imitar todos os teus movimentos no volante.
É entrar agora contigo no café, ser mais alto uns bons centímetros, dizerem-te "estão a chegar os Casagrande", ou tu sorrires e dizeres "atenção que hoje trago guarda-costas!". É ver-te sentado no sofá a dormir e eu apagar a televisão ou baixar o volume e tu responderes "eu estava a ver".
Ainda continuas maravilhado com ela, com a magia da vida, a acreditar na bondade das pessoas, a seres bom, ainda que nem o saibas que és.
Penso ainda, por vezes, condicionado por esta sociedade, que deveria ser riquíssimo, dar-te tudo o que me dás, mas vejo agora que não há riqueza maior que esta, de nos rirmos com as piadas que só nós conhecemos.
Ainda vou abraçado a ti, com os olhos fechados, a sentir o vento nas pernas e nas mãos, com o capacete a bambolear, sentado na traseira da barulhenta Java.
A certeza de sentir que aconteça o que acontecer, sempre nos teremos uns aos outros, a família, os verdadeiros amigos, enquanto houver pontes, grutas, erva, sol, noite, rios, enquanto houver um universo nada poderá existir que nos tire a liberdade de sermos quem somos, de nos rirmos quando mordemos uma extremidade de um cachorro especial, desses que se compra nas rulotes, e ver cair da outra extremidade um monte de batatas fritas ao mesmo tempo que fugimos com os pés para trás para não nos cair a maré de molhos que pedimos para colocar sobre aquela saborosa mixórdia. Se um dia eu puder ser mãos, quero ser as tuas.
E o mais fantástico é que nada é novo, é cíclico, já o tinha comigo antes de nascer, continuará comigo e apesar de não saber porque razão escrevo isto agora, faço-o. Porque sim. Porque estas coisas não se explicam e eu estou a aprender que nem preciso de escrever bem, de ser fiel às minhas memórias ou sonhos, porque na verdade e embora me entristeça, porque gostava de poder transmitir tudo aquilo que sinto, tudo já foi escrito, tudo já existe em cada um de nós, em cada uma das pessoas, porque somos felizes com nada e o Universo está cheio dele. Virá o dia em que não precisaremos escrever (e tudo o que se perde do que vem do etéreo para o cérebro e deste para as mãos) e aí sim, todos saberão o que é escrever com o olhar.
Até lá, vou perdendo o olhar em tudo o que me rodeia, na tentativa de, um dia, as minhas mãos serem um pouco a extensão do que Sou.

2017-05-31

Sorriu-me a maré dourada que se estendia pelas sombras do que o Sol não cobria. 
Ondas de lavoura e espuma de milheirais, na irregular costa da simplicidade de amar a terra, eis os despojos sem guerra.
Um arado que se verte pelo olhar, eu e as nuvens a suspirar, o texto que teima em falar e eu, navegante, calado, sem me saber sequer vocalizar, porque há um hiato entre as vagas das vidas onde não sei nadar.

2017-05-29

Dois relâmpagos e três trovoadas

Crónica, no Correio do Porto.

O tempo, apesar de não existir, vai fazendo de cada um de nós o modelo para as suas pinturas. Crava uma ruga aqui, uma saudade ali, um qualquer padrão que nos embrulhe e entrega-nos à vida, apesar de não existir, para que ela se encarregue de nos unir num gigantesco mosaico, um dodecaedro cujas faces internas são o caleidoscópio das memórias.

De todas as ambiguidades, a dualidade da vida vs tempo parece levar em si, bem escondida, todas as palavras que teimo em tentar compreender antes de escrever.

Troco dois relâmpagos por três trovoadas murmurantes a quilómetros de distância. Ou, então, por um segundo de imortalidade nas rugas pintadas pelo tempo, esculpidas por mim, artesão de mim mesmo.

Entro pelo sono abraçado à noite, na esperança de ela mesma, quando se cruzar no horizonte com o dia que nasce, lhe passe os sonhos que se diluem quando acordo.

Nunca acontece.

Acordo com o despertador e, nesse momento, tudo e todos que me rodeavam se assustam com o início do desenrolar de mais um dia que se vai parir e morrer cedo.

Só quando a claridade me deixa torpe suficiente, consigo, ainda que fugazmente, ver levantarem-se da minha beira os meus zeladores, deitando-me com o carinho que, acredito, dedicam a cada um de nós ignorantes.

Nascem dias todos os dias, muitas vezes mais do que uma vez por dia, mas continuamos, apesar de esforços invisíveis, adormecidos anos e anos enquanto aquilo que pensamos ser vida passa por nós, fatigada.

Que tudo procuramos nós, se tudo o que necessitamos é nada?


2017-05-28

Quando o sonho chegar a voar e me estender a mão

Crónica na Bird Magazine.

No momento, neste, em que sinto o vazio de não escrever, ter palavras agarradas à alma, frases inteiras entrelaçadas num emaranhado novelo, é quando desejo a simplicidade de olhar o céu estrelado, ainda que me separe dele alguns pisos e uns quantos quilómetros.
Hoje, na ausência de filosofias, vou escolher retirar do forno da vida as noites mais frias, para que possa imaginar sentar-me na beira da cama, pendendo os pés para um vazio luminoso e adormecer nesta posição, para me levantar rapidamente quando o sonho chegar a voar e me estender a mão.

Poucas luzes brilham mais que uma noite sem lua. Enquanto o vento abana as lâmpadas no coreto, há uma musica tua, que se toca, corpo e sinfonia, para lá do frio que começa a cair desamparado, entre os ombros e o cigarro. 
Sou o lume que apago, pelos degraus da justiça, ascendo à boleia, literal, da compaixão metamorfoseada em casulo, hoje a vida nasceu ao contrário, não te preocupes, novo olhar poderá ter-te, novamente, nesse lugar de ninguém onde se encontram vidas passadas, há séculos, ontem.

De onde vens tu, amálgama de gente, pelo calor acima com todo este serrado às costas? 
Quererás deslocar o mundo, para que passem por ele, sobre ele, os ecos de uma morte enunciada, enumerada, designada? 
Vales pouco mais que uma rima de gado, por isso mesmo te querem submisso, parcamente alimentado, na esperança vã de um dia despires o suor e descansares sentado na beira da cova, reles buraco que tiveste que comprar, à espera de adormeceres, de tédio, solidão ou, simplesmente, até te empurrarem com um pontapé ou uma palmadinha nas costas. 
Vai que vais tarde. 
O teu tributo será o húmus que alimentará as pastagens ainda antes de serem sementes.
Se te soubesses eterno, perene, unicidade da multiplicidade, poderias virar costas e voar, sem medo e sem olhar para trás, o teu maior segredo é seres rei e fazerem de ti cravo, com que prendem a ferradura nesse teu cavalgar de equídeo bravo, selvagem.
Não... Não acredites em mim, estou cá de passagem, sem alforge, sem bordão, sem roupa, sem viagem.

Do calor faço imaginação, pelas curvas o destino, a paisagem sobe-me à mão, a palavra instrumento que desafino. 
Pudesse o Sol subir tão alto e prolongar a sombra do futuro na fachada da minha morada, mas a minha morada é pousio que habito sem dormir, as paredes do meu quarto são as luas reunidas quando por entre serenamente movimentadas plantas te vejo sorrir.
Sigo o traço da minha mão, chamam-lhe linha da vida, por ela um ribeiro secou quando Dezembro terminou sem nunca ter Primaverado. E, pelo entardecer tardio, não tarda vou dormir, sem nunca ter acordado.

2017-05-21

De que vale o silêncio se ninguém o escuta?

Crónica de Domingo, na Bird Magazine.

Seria, provavelmente, capaz de partir a pé por esses caminhos fora. 
Não é à toa que vagabundo rima com mundo. 
Acabo por cobiçar o sorriso desligado da alegria que vejo nalgumas faces, cobertas por barba, em corpos que não se inibem em deitar num banco de uma estação de comboios. 
Indiferentes ou talvez não, ao lixo acumulado na linha, nas metades de tonéis que nunca o ambicionaram, mas são agora recipientes onde descansam em paz acalorada várias garrafas de plástico de líquidos que são caras formas de se beber má água.
O átrio da estação está vazio. 
O calor convida a uma estada prolongada num velho banco de madeira. 
A poltrona amarelada olha de soslaio. 
Coitada, não percebe que aquele tecido empoeirado não convida a que alguém, mais ou menos incauto, se sente ali. 
As horas passam devagar quando olhamos para o relógio, antigo, a olhar com cadência do alto da coluna de madeira. 
Basta desviarmos o olhar para ele desatar a correr de ponteiro em ponteiro, este tempo atribulado.
A vida há muito saiu dali. 
Os azulejos que ornamentam o edifício escorrem saudade. 
Acaricio a face de alguns dos trabalhadores e trabalhadoras retratados. 
Algumas aves fizeram o favor de ornamentar os azulejos, mas isso não me inibe de afagar o dorso de um touro, calculo que esteja cansado, mas afinal parece ser apenas solidão. É normal. 
Outrora vibrante, a estação resume-se a um só funcionário, escondido numa redoma, rodeado de um ecrã, teclas, papeis, códigos QR. 
Longe vai o tempo de o senhor com o balde e a pinça de metal na mão, a apanhar o pouco lixo que existia.
Agora tudo parece ter lixo, restolhos mal cheirosos. 
Até as pessoas mudaram, outrora pessoas bem cheirosas, em corpos mal cheirosos, agora pessoas mal cheirosas, em corpos bem cheirosos.
Tudo muda. 
Até o silêncio, que parece ter descido sobre vários apeadeiros, despindo-os de telhados, partido vidraças, apodrecido vigas de madeira em profunda raiva pelo que de mal nós lhe fizemos. 
De que vale o silêncio se ninguém o escuta? 
Vou percorrendo o caminho com o olhar no trilho, claqueio mentalmente o som das rodas sobre os carris. 
Dói, não sei bem o quê e por isso tão difícil se torna diagnosticar, mas dói sempre e cada vez mais ao observar o abandono de tudo o que foi. 
Acredito que as memórias perduram e resistem abandonadas apenas para que possamos sentir que, de facto, quando ao futuro chegarmos vermos que o que deixamos abandonado encerra a parte de nós que não deveríamos ter esquecido, o reflexo da nossa face na superfície da vida.

2017-05-14

A fé

Crónica de Domingo na Bird Magazine.

Eram as palavras como tenazes folhas de oliveira, as sombras lânguidas paredes que circunscreviam os montes onde o teu sol, como luz que eras, se permitia descolorir para que todos os outros, como nós, cegos, orassem sem saberem versicular. 
Pergunto-me se ponderavas tudo caminhar para isto.
Seria, Cristo?
Sobra-me, enquanto arrumo o que sou, as montanhas ao longe, cercadas por um mar agitado que nunca as banhou. 
Não tenho medo de morrer, mas tenho um medo irracional de não viver.
Sobram-me as estradas sinuosas que, obrigatoriamente, calcorreiam quem não sabe voar. 
Sobra-me a consoada e o anuncio, festivo, de que a neve é azul e o céu, esse, é da cor que eu quiser, porque tenho como parceiro este estranho homem, comido pelo tempo, abrigado sob um alpendre tolhido de fumo, acompanhado de dois santinhos, que irei saber, quando voltar atrás e o ler como quem acorda, serem nossa senhora e o menino jesus. 
Garrincha, na falta de primaveras, é o meu conforto e a certeza profunda, enraizada, do tronco que sou.
É com o vento frio e um calor no ventre, que me dedico a admirar a legumeirada que se banha na corrente quente da sopa na tigela. 
Uma divisão. 
Um colchão. 
Um caderno e um lápis na mão. 
A catadupa dos invernos que fugiram ao verão. 
Há vento, a granel, para quem goste dos sussurros. 
Não me falta o enfeite de um Natal, assim a modos de presépio, com musgo a fazer de reis magos e um menino Jesus que nascerá. Plim! O microondas, perdão, o fogão a lenha, esgravata um grunhido e avisa-me que a caldaria está pronta. 
Os cavacos esbaforidos passam a mão pela fronte limpando o suor, contentes, realizados, deixando-se depois cair de costas para as brasas onde, sabem, serão consumidos, ascendendo a um céu de fuligem, para choverem novamente aos meus olhos, que os levam onde nunca eles agora cavacos, ontem árvores, amanhã cinzas, sonharam, tal como eu, ir.
Assombrado, percorro os caminhos que traço, sem grande cautela, há na vida espaço para nós, eu e ela, a vida. 
O calor transpira-se em mim, hoje sou rio. 
Rio. Levo-me em levada e vou comigo cheio de nada, de bolso prenhe da mão fechada, os nós dos dedos vincados, as rugas anoitecem e acordam-se como os cerrados, ancorados. Felizes os que se portam em porto, rabelizados na maré de uma existência escoada num Cristo Rei, de pé, aguardando pacientemente a vinda de si mesmo. 
Isto é a fé.

2017-05-04

Royal mile

Royal mile, crónica no Correio do Porto.

A Royal mile estende-se preguiçosamente, esquecida quase que está pelo calcorrear maléfico das altezas reais que de gente fez degrau e, abaixo e acima, fazia do povo sina. O vento corre seco e frio, traz-me ao ouvido recordações caledónias e o sussurro de uma gaita-de-foles, espremida no regaço quente dum puto, cara de sonho, sorriso de vida, onde cada libra vale 15% para outros putos cujo cancro coloca cara de dor e sorriso de esperança no dia seguinte e mais 15% para aqueles que não se conseguem lembrar da própria vida.
As paredes dos prédios tornam o negro ainda mais agreste e a multidão faz-se maré de um mar que não parece saber para onde caminhar. Os cheiros oscilam entre o conhecido puritano e o inolvidável sagrado, de vidas distintas e épocas remotas, acometidas para o presente que se imiscua com todos os tempos, agora que o próprio tempo parece deixar de correr para ser sempre hoje.
É quase noite, o cachorro levanta preguiçosamente o sobrolho e fita-me com pena, parece-me. Não o censuro, sobre um solo erguido sobre lava, está deitado junto ao dono, debaixo do que parece ser um saco cama, ou várias camadas de sacos cama. O mendigo parece-me mais novo do que eu. Olha-me a sorrir quando deito umas moedas no copo cheio de nada, ainda com a sombra do logótipo da Starbucks, onde ironicamente está escrito “Dreams”. Pisca-me o olho e segue o seu caminho, sentado, espreitando para dentro da história do grosso volume de “Guerra e Paz”, convidando-me a seguir o meu caminho, Royal mile abaixo, assobiando mentalmente qualquer melodia que penso ser escocesa.
O dia escureceu na totalidade agora que o Sol, a esta latitude, se foi embora cansado e a noite surge com mais esplendor porque a multidão se recolhe e embriaga sob luxuriosas luzes falsas. Sem gente, as ruas tornam-se mais vívidas, habitadas apenas por quem foi esquecido, na vida e na morte e, por isso, sem recordações que sombreiem, iluminam a noctívaga vontade de ser estrela. 
Volto ao local onde o vi, desabrigado, a ler e arrisco um início de conversa. 
– Sem abrigo? – pergunto em inglês, aninhado à sua frente e sob o olhar avaliador do canídeo.
Marca a página com o dedo enluvado, muito perto do fim do livro e ergue-me um olhar sorridente, calmo e compreensivo. Com o braço descreve um arco sobre a cabeça dele e olhando para o céu nocturno, mais visível agora, responde-me com nova pergunta. 
– Que outro abrigo além das estrelas? 
Trocamos um olhar montanhoso. Aponto para a capa do livro e pergunto, sem vontade de ir embora.
– Pronto para a guerra?
– Não amigo, pronto para a paz.
E sorrindo ainda, colocou um recorte de jornal a marcar a página, fechou o livro, aconchegou o cão debaixo do braço, puxou o saco-cama para o pescoço e fechou os olhos alheio ao barulho que vinha do bar duas portas acima.


2017-04-30

A chuva, sempre a chuva

Crónica, na Bird Magazine.

Não pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela. 
Não pelo calor, que deslizará a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer. 
Por onde, por que, porque, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são. Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste? 
Tenho por fundo o fundo, apenas. Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear. 
A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta. 
Como o adoro. O planeta. O futuro. 
Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não tinam as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzida vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram. 
Arrefeço, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança e reinvente a chuva. 
Hoje traz-me a memória do abraço, a ombreira da porta, os pingos que se volatizam quando em contacto com o corpo de um outro ser. A chuva, sempre a chuva, eu, sempre eu. O apagado semáforo que teima em sair do tricolor destino, a rua fechada e um trabalhador abrigado sobre as memórias de dias mais coloridos.
Olhos semicerrados, as gotículas aquosas de uma quimicidade que não se saber ser água. Água, sempre água. As costas encostadas ao húmido vestuário, um autocarro que passa prenhe de passageiros conduzidos pelo destino, o destino, sempre o destino.
Hoje chove, por mim, pelo caderno virtual que abro no deserto com vista para o nada, e por breves momentos, entre água e nevoeiro, juro ter visto um relâmpago e o troar de um trovão que parece chamar por mim. Trovadora, a Natureza canta-me ao ouvido o sussurro de um abrigo sob duas grandes pedras encavalitadas num equilíbrio eterno.
Consegui chamar o frio, novamente, que teima em fugir por entre as minhas recordações de Inverno e de finais de tarde lá de meados de Setembro. 
Abriga-se no meu colo e no olhar aflito de uma dor que não se compreende, penosamente enfia o seu focinho afiado entre o meu braço e o tronco e deixa-se ficar, quase que adormecido, enquanto eu próprio também durmo na esperança de acordar e ver que o dia é ainda dia. 
Se nos teimarem ser Verão, também seremos, verão que das estações só as do comboio, mesmo que alienadas e despojadas sejam, permanecem inalteradas na paisagem, quem as não tem? Paisagens e estações? 
O frio escapa-se-me e segue, por aí, acalentando olhares de soslaio, sonhos de catraio, dois ou três pares de nuvens e um sorrio. São estas as minhas orações.

2017-04-23

Planalto ressuscitado

Crónica de domingo, na Bird Magazine.

O vento soprava quente, mas lá, sob as oliveiras, esse mesmo vento corria sobre nós, tapando e aquecendo-nos como um morno e invisível manto de serenidade. Era fácil ser feliz sem nada. As pequenas azeitonas colhidas pela natureza antes do tempo marcavam o chão, assemelhavam-se a pequenos botões verdes num acolchoado tecido usualmente parco de cores. Ficávamos ali contigo a olhar o céu, calados, o barulho do vento a fazer com que as folhas sussurrassem entre elas, o baque surdo de uma azeitona a cair. 
Já todos nos perguntávamos sobre o que há para lá das estrelas, tu olhavas quem te perguntava com aquela profundidade de nos saber mais do que somos, sorrias e apenas contavas histórias de casa do teu pai. Dizias que havia por lá muitas moradas e que apenas nos sentíamos sozinhos porque não nos sabíamos encontrar ali, ou em qualquer outro olival, no silêncio que deveríamos aprender a calar. Nalguns momentos em que falavas de algo como se todos o soubéssemos previamente, rias-te quando indagávamos o sentido das palavras, sempre gostaste de metáforas, dizias que o significado surgiria quando nos lembrássemos do que te lembraste, ou do que vieste fazer recordar, e tratavas-nos como se fossemos longos irmãos de jornadas sob oliveiras, bodhis ou outras árvores que dizias existirem noutras estrelas. Como tenho saudades desse tempo.
Quando te encontrei sozinho, venci medo, timidez e perguntei-te algo. É curioso, não recordo a pergunta, mas lembro-me da resposta que deste, ainda a possuo em mim apesar do ruído dos iluminismos e medievalismos de todas estas voltas ao sol. Talvez a tenhas passado para mim pelo olhar, a tua típica resposta à cacofonia com que te rodeavam, aquele olhar fundo que parecia penetrar olhos dentro como se olhasses para (ou soubesses que éramos) o infinito que nos habita no interior. Hoje ainda procuro essas respostas, ou por ti, nos olhos de com quem me cruzo.
Quando foste, como disseste que ias, o que mais enfatizaste, nos momentos em que permitias que olhássemos para dentro de ti, era para termos cuidado com o que oportunistas poderiam fazer com as tuas palavras. Por isso cada um que desejasse o silêncio deveria trocar o folclore, a opulência carnavalesca da necessidade egocêntrica de superioridade superlativa pelas verdadeiras palavras inauditas que são um abraço. O silêncio seria sempre o pautar ritmado do amor, como um pêndulo que vai e vem, sem nunca ir e voltar, porque estaria sempre onde o tempo não alcança. Disseste-o, mas talvez ainda não saiba o que significa, por isso continuo no silêncio e o tempo faz-me confusão hoje como fazia antes. Hoje estou por aqui e enquanto não chega amanhã vou trauteando calado as paisagens que encontro no interior de outros. 
Tu, na mais perfeita solidão de seres único com a pluralidade de todos nós, idos e vindos, o universo criado, expandido, implodido, recriado, na infinita miríade de células que habita todo o espaço onde existes e não existes, vais teimando silenciar e encher de beleza até a mais escareada face de quem se esqueceu de ti e se escondeu de si próprio.
Lembras-te quando, chegados a nova terra que não te conhecessem o corpo, além do contado e acrescentado, permitias qualquer um de nós subir no burrico e ser aclamado entre folhas de oliveira, enquanto nos guiavas, burrico e nós como um só pela rédea solta? 
Que saudades tuas meu querido amigo de silêncios, por cá andamos sem nunca dar o salto, cada um de nós uma escarpa que tentamos escalar, única e simplesmente porque não nos sabemos planalto.

2017-04-09

De mãos abertas

Crónica na Bird Magazine, em 09/04/2017.

Olho para os meus pés e vejo-os virados para locais que não conheço, sinto pequenas mãos que me puxam vestes que não trago vestidas e quando eu mesmo olho as minhas mãos, assim, abertas, estendidas, com as palmas viradas para o chão, sinto que a Terra me tenta falar, deixo que o frio tépido me seduza e as pálpebras sucumbam a um sonho qualquer. 
De que são feitas as minhas mãos? Invejo as mãos calejadas e toscas de quem trabalha no campo, na terra, na vida, as que limpam o suor da face quando o Sol lhes leva o cansaço, as que se metem nos bolsos furados e sem fundo, que apertam outras mãos nuas, sem ocasos ou eclipses, as que suportam vidas e cajados e carecem de carícias.
As minhas mãos envelhecem comigo, percorrem teclas como quem salta de pedra em pedra numa lagoa descoberta por acaso. As minhas mãos lacrimejam quando sentem e estão assim, viradas para o mundo, com estrelas e letras, palavras que ainda não nasceram, tacteiam o escuro em que o mundo por vezes penetra, para depois sorrirem comigo, quando, firmes no volante, um odor lembra um sonho que elas moldaram.
As minhas mãos talvez sejam eu mesmo, abertas, viradas para o mundo, agarradas a um corpo que não conseguem fazer voar, correndo desenfreadamente em busca de um solo quente, de mergulhar em águas ainda não passadas, de se sentirem comprimidas a um espelho.
As minhas mãos anseiam tocar almas, respirar fundo e abrir um portão grande, de madeira, que veda a entrada de todas as minhas paisagens sem fronteiras.
De quanto precisarei para ser do tamanho daquilo que não alcanço?
O vidro embacia, os faróis dos outros carros ofuscam-me a visão apesar dos meus olhos verem as pessoas e as almas que por lá habitam. O limpa-vidros dança numa pequena tentativa de me seduzir, mas na verdade sou eu quem o comanda. A paisagem vai-se deslocando enquanto me guio pelas curvas do destino. Não há pequena eira abandonada que não me queira secar ao Sol. Não há fraga alguma que não me queira abrigar da chuva.
Todos os campos, com os seus cereais, convidam-me a percorrer lentamente, de olhos fechados, com as mãos abertas, sentindo o frio e o quente, o prazer e o êxtase de germinar enquanto anoiteço encostado aos meus sonhos.
Gosto de estar aqui, a contrariar os olhos que teimam em fechar, sinto o sono escorregar por mim, envolver-me no seu manto quente de noite transmontana, mas, no final, sou eu que o adormeço. 
Acena-me com todos os sonhos que me aguardam, serve-mos como se fosse a sobremesa recompensadora de um dia servido mal temperado.
No entardecer das minhas mãos os meus dedos percorrem as últimas e efémeras linhas dos horizontes dos meus mundos, alcançam ainda as sombras longas de pinheiros que nunca subi, para serem também um pouco de sombra e trevas na crista das minhas vidas.
Eu sou grande, fisicamente, mas quando me amparo na sombra de um murmúrio vejo o quanto de crescimento tenho para minguar.

2017-04-05

Fruta engomada

Crónica do nada, no Correio do Porto.

É dia de feira, como sempre é quando não sei que é. Subo a avenida principal, a mesma que tantas vezes quis saber o nome e, ainda agora, não o sei. Creio não ser importante o nome pelo qual catalogámos, as ruas ou as pessoas, embora ache curioso que esta travessa se chame “Rua do Souto” e, do nome, apenas a minha imaginação pode andar por ali abrigada pelas sombras de uns castanheiros que nunca soube darem mais do que terrenos e casas miscíveis.
Paredes tem nome de casa, de terreno entre lareiras de uma mesma brasa e, por isso, talvez me acolha quando decido deixar-me levar pela mão de quem me aquece o coração. A avenida, qualquer avenida, é feita de pessoas e eu que as tento colar à retina, vou atento a tudo o que seja gente e vento. Sorrio pela vaidade que se esvai e esfumaça quando se tenta ser o que as revistas trazem agarradas às folhas. Este mundo não parece ser para esfomeados de espírito. 
As travessas parecem conduzir ao recinto da feira, vejo os carros estacionados, presos, onde antes se deixavam os animais, arfantes, com a laça na argola de ferro. A lateral da igreja não escapa, poucos crentes se atrevem a sair da viatura sem se benzerem, não vá um cristo estar atento e nos julgar cristãos sem grande alento.
O cheiro do posto de gasolina, os carros guardados que espreitam pela nesga do portão aberto e sorriem, as vozes que falam alto o que as pessoas pensam baixo “estava mesmo a pensar em ti caralho!”, o tinir das chaves penduradas na presilha das calças, a boina gasta, o tacão que esgrime passos com o chão. Há poesia que se incute e em mim repercute. Ousasse eu ser menos cego e talvez conseguisse, ainda que por momentos, ver mais além de um mundo que se enche de velhice.
A cada porta cogito sobre o negócio, correrá bem? “Olhe, por cá se rasteja”, as montras parecem adormecidas, as prateleiras enchem-se de tudo aquilo que não faz falta e, do que faz, vive-se empurrando com o esquecimento para trás. Eis que transpiro e sorriso, duas janelas sorriem de cada lado de uma porta aberta, os autocolantes de velhos sumos gaseificados, a fruta não envernizada sobre caixotes de pinho, a prateleira de madeira, a maçã encarnada que olha para mim e se ri por tudo e por nada e a dona, velha, loja própria de quem nunca comercializou vontades, ou saudades, ou lá o que é que me faz parar e olhar para dentro, de mim e do que o comércio é, vê-la ela mesma prateleira no labor de uma geira, a tábua de engomar aberta, a camisa quadriculada de azul e preto, o ferro nas mãos a vaporizar a manhã de sábado e o cheiro fresco a roupa lavada, ou seria fruta engomada?